Quando foi que passamos a torcer contra o Brasil?

“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração!”. A música começava a ser ouvida na TV e uma criança feliz como eu, no início da década de 1990, já sorria largo: alguma coisa que envolvia a seleção brasileira ia rolar. Estava garantida a pipoca com melado, o aperto da família no sofá e a bandeira verde e amarela pendurada numa janela qualquer. Uns dias antes ou depois, pulávamos aos gritos de “Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil”.

Não lembro de caras pintadas, mas lembro do meu pai me explicando que dinheiro agora se chamaria real – ele sempre trabalhou em bancos e lá por essa época eu pintava os desenhos de uma cartilha que o Besc tinha feito para ensinar os clientes a utilizarem o caixa eletrônico. O bug do milênio não aconteceu e os anos 2000 nos trouxeram Gisele e Guga. Nossos grandes, nossos orgulhos, nossos números 1.

O futebol (masculino, vale ressaltar) não nos deu mais orgulhos, nas pistas desaceleramos. Até Gisele e Guga se aposentaram. “Está difícil defender o Brasil”, ouvi certo dia antes das 8h. Será mesmo?

Vamos realizar daqui a alguns dias uma Olimpíada – que, diga-se de passagem, confirmou a vinda pra cá num momento de economia em expansão e altamente propício para que esse sonho que era meu, seu e de toda a nação se realizasse (antes de dizer que não, pense em como você gostaria de estar no estádio para gritar “é teeeeeeeeeetra” na Copa do Mundo de 1994).

Sim, as obras não ficaram como deveriam e há vários indícios de corrupção. Mas não há como voltar atrás. Os turistas vão chegar, os atletas vão competir e o mundo estará olhando para nós. Queremos aguar a rocha e passar vergonha ou aproveitar a oportunidade para que valorizem ainda mais o Brasil e os brasileiros?

A seleção (masculina, vale ressaltar) vai mal, é verdade. Mas você sabia que a nossa seleção feminina de vôlei conquistou o 11º Grand Prix na última semana? Que a seleção masculina da modalidade é a maior campeã de Ligas Mundiais, com nove títulos? Se você está dizendo que é fácil para essas modalidades que tem apoio e patrocínio, saiba que, com a ajuda da iniciativa privada, a atleta catarinense Jonathan Riekmann está no México se preparando para a Olimpíada. Você também poderia ter ajudado.

O momento que o país atravessa não é fácil. Está todo mundo com o desânimo dos problemas do Brasil pesando nos ombros: o desemprego, a violência contra mulheres, a falta de investimentos no que precisamos e o excesso de roubo dos que não precisam de mais nada. No entanto, os atletas continuam suando, as pessoas continuam se organizando para verem os jogos, os voluntários doarão seu tempo para que o evento aconteça.

Faço, então, uma proposta muito decente: no dia 5 de agosto, quando o show preparado pelo país que faz o maior espetáculo da Terra começar, vamos fazer pipoca com melado, apertar a família na sala e colocar a bandeira do Brasil num lugar bem visível. Porque é hora de deixar a canção seguir com “de repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão! Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração! Todos juntos vamos pra frente Brasil, Brasil!”.

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