Mudar o mundo é de dentro pra fora

Sou de uma geração que quer mudar o mundo. E o peso do orgulho desse sentimento é o mesmo da frustração que carregamos por não conseguir vislumbrar nenhuma grandiosa alteração escorrendo pelas nossas mãos. A ambição em sermos relevantes para o mundo cega a nossa compreensão do que é ser a tal mudança que Gandhi falou.

Compartilhamos frases, textos, motivações, lições. E o que digitamos está, na verdade, muito longe da ponta dos nossos dedos e muito perto da linha que divide o que somos e o que queremos que o mundo seja. Não entendemos que não dá pra mudar o mundo sem começar pelo nosso próprio olhar. Sobra egoísmo e nos falta autocrítica.

Falta percebermos que feiúra está na nossa concepção de bonito, não na sua própria existência. Quando vemos algo feio, não é ao outro que aquela imagem agride. É a nossa própria retina.

O preconceito não está nos negros, nos homossexuais, nas mulheres. Está no nosso olhar covarde que bloqueia a crença na felicidade e na capacidade do outro se ela não for exatamente como a nossa. Está na nossa mania besta de achar que o mundo vai ser melhor se nos vermos como iguais, quando deveríamos amar profundamente o fato de sermos maravilhosamente diferentes.

Nós mudamos o mundo quando entendemos que os gatilhos que despertam a reclamação podem se transformar em inputs para respirarmos fundo e enchermos com ar o lugar do ódio. O momento que desperta a vontade de julgar o outro por atitudes e contextos que você desconhece pode ser aquele que te acorda para a empatia.

O outro sempre vai te trazer algo. A existência pressupõe a entrega. E o que será que você entrega para o mundo quando exalta a intolerância com quem te fechou no trânsito, com o morador de rua que dorme na calçada, com quem pensa diferente só pelo fato de pensar diferente? Como mudar o mundo quando só o alimentamos exatamente do que queremos alterar?

Mudar o mundo não é se blindar de sentimentos negativos. É deixar que te invadam, transformá-los em algo diferente e devolver ao mundo compreensão, empatia, amor. É plantar sementes do alimento que falta, não regar as pragas contra as quais tanto lutamos.

Mudar o mundo não é fácil, mas é íntimo. É mais silêncio do que discurso, mais olho pra dentro e menos boca pra fora, mais vida real do que mídia social. Mudar o mundo é mudar o seu jeito de ver o mundo, de sentir o mundo, de curtir o mundo. Mudar o mundo é solitário. Porque toda multidão – e todo mutirão – precisa começar de algum lugar.

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