Eu aceito as flores

Lembro que, quando eu era bem pequena, no Dia Internacional da Mulher, meu pai sempre chegava em casa com flores. Do buquê para a minha mãe, sempre restava uma solitária que acabava na minha mão. E eu sempre achei aquilo lindo.

Nunca percebi esse como um ato de machismo. Fui criada acreditando que o dia 8 de março é para que elas recebam uma gentileza, um sentimento de gratidão pelo que a minha mãe faz por todos nós. E eu, quando era bem pequena, sempre me sentia ainda mais orgulhosa em ser mulher nesse dia. Parava pra pensar que, de alguma forma, eu contribuía com o mundo dele também. Até uma flor eu ganhava.

Concordo com toda a necessidade de manifestação para que o nosso espaço (e o nosso direito, sim, óbvio!) sejam respeitados. É um absurdo o número de mulheres que morrem vítimas de violência doméstica, outro a discriminação que sofremos nos salários, mais ainda que ainda não consigamos perceber que quem decide ter um filho e parar de trabalhar é tão mulher quanto quem não quer casar nem ser mãe.

Eu só queria que hoje fosse um dia para valorizar o feminino. O feminino com toda a sua deliciosa contradição: leveza e explosão, sutileza e brutalidade, sorriso e lágrima, silêncio e grito. Sempre vulcão.

Acredito em duas formas de mudar o mundo: pelo protesto e pela gentileza. Se não estivéssemos protestando, tantos avanços não teriam acontecido. E nem falo de ir pra rua. Falo do nosso protesto mais silencioso: o crescimento das mulheres nos cargos de chefia, a liberdade que estamos conquistando sobre o nosso corpo e sobre as nossas atitudes, o crescimento nas denúncias da Maria da Penha.

Mas eu também aceito as gentilezas porque fui criada para entender que a sinergia que há (juro que há) entre protesto e gentileza podem se completar e tornar uma data comemorativa um dia de reflexão. Eu quero flores e respeito, flores e protesto, flores e segurança, flores e liberdade. Por que tenho que escolher se eu acredito numa sociedade onde tudo isso possa acontecer ao mesmo tempo?

Na mão que segura o buquê que a minha mãe recebe há 30 anos, há alguém que dedicou esse dia 8 de março para pensar em quanto uma mulher faz diferença na sua vida. E isso pode mudar o mundo. Mudou o meu mundo. 

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