O BV de Alice e nossa falsa liberdade

Outro dia, jantei com Alice. Uma menina de 15 anos que eu vi crescer e, ao mesmo tempo, que eu não sabia que era tão grande. No meio de uma brincadeirinha de família sobre um suposto pretendente que ela estaria namorando, ela disse, em alto e bom tom: “não estou namorando, eu sou BV”. A revelação foi seguida de um silêncio incômodo que só piorou quando o tom da pele do rosto de Alice foi se avermelhando.

BV, para quem não sabe, é uma expressão usada aqui no Sul para aqueles que nunca beijaram. Os “bocas virgens”.

Alice não sabe, mas quando vivia aquele tempo, não admitia pra ninguém que nunca tinha beijado. Dizia num curso que beijei o menino da escola, e vice-versa. Jamais tive coragem de contar a verdade nem para a minha sombra. Meu diário, coitado, recebia as minhas lamúrias por não ter beijado ainda. Era absurdo, na minha concepção de criança grande, que aos 14 anos eu ainda não tivesse beijado.

Até que, não lembro bem como, o menino que eu gostava se aproximou. Ao invés de um tímido “fica comigo?”, ouvi dele um “quer resolver isso?”. Quis sair correndo, mas disse que sim. Ele não se preocupou nem em descruzar os braços enquanto eu vivia aquele momento mágico e lindo – que acabou se tornando uma lembrança frustrada.

Nunca contei isso pra ninguém. Até que Alice, aquela menina que eu vi crescer, falou sem medo e sem dó, na mesa de jantar: nunca beijei. Quis aplaudir, quis abraçar Alice. Mas fiquei tão estarrecida com a atitude dela, que fiquei parada, em silêncio.

Alice me deu um tapa na cara naquela noite. Ela me mostrou que admitir uma suposta fragilidade, não é problema, não tem nada de mais. Ela não perdeu a integridade, não se deixou abater pelos risos tolos.

Me fez lembrar quantas vezes já ouvi comentários preconceituosos sobre meninas que não “pegavam ninguém” ou sobre aquelas que tinham decidido casar virgens. Também sobre aquelas que “passavam o rodo” que, no nosso preconceito não tão juvenil, chamávamos de vagabundas.

A liberdade pela qual tanto lutamos só será válida quando pudermos admitir, sem medo e sem vergonha, que fazemos escolhas diferentes. E não somos mais ou menos maduras, evoluídas ou femininas por isso.

Não precisamos transar com incontáveis pessoas só para provarmos que podemos. Não precisamos ter experiências ruins por que “era a hora” no relógio dos outros. A menina que casou virgem não foi mais ou menos feliz do que aquela que viveu uma dezena de experiências.

Não precisamos sacrificar momentos para não sermos alvo do pior tipo de bullying: aquele que fizemos com a nossa própria vida ao mantermos o hábito de nos compararmos com as demais.

Tomara que a gente consiga educar as meninas que estão chegando não só para serem mulheres fortes e determinadas. Mas também para que respeitem os seus próprios limites e medos. Para que, assim como Alice, não precisem esconder que nunca beijaram, nem que já beijaram muito.

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