O empreendedorismo e as pessoas

Há algum tempo um amigo me chamou para uma conversa. “Preciso te pedir desculpas”, dizia. Sem entender qual era o motivo desse suposto perdão, fui ao encontro dele. Com uma cara de cansado e os primeiros sinais de cabelos brancos, ele me explicou que, mesmo como amigo, sempre julgou algumas das minhas atitudes como empreendedora. Vivia me dando conselhos, achando que eu deveria executar esta decisão ou aquela.

Eu sempre achei normal, afinal de contas, aqueles bons e velhos ditados que dizem que “a grama do outro sempre é mais verde” pra mim sempre fizeram sentido. Mas, depois de alguns cafés e uma longa conversa, entendi. Agora ele era sócio de uma empresa e passava exatamente pelos mesmos problemas, ouvia exatamente os mesmos conselhos e sentia exatamente a mesma dificuldade em explicar que “não era bem assim”.

Outro dia comecei uma série de entrevistas com os envolvidos na criação de um cliente para elaborar um livro sobre a história da empresa. Na primeira conversa, o fundador conseguiu me emocionar. Em 2004, por conta da questão cambial, quase perdeu uma indústria inteira – este ano completa 20 anos, incrivelmente bem.

Ele respondeu que sim, pensou muitas vezes em desistir. “E por que não o fez?”, perguntei. O empresário me olhou e disse “porque em nenhum momento os meus filhos e a minha esposa me julgaram pelas decisões erradas que eu cometi. Porque eu tinha diversas famílias dependendo daqueles empregos. Porque eu tive fornecedores que perdoaram os meus crediários atrasados e continuaram me fornecendo. Não existe imposto atrasado ou oficial de justiça que apague isso”. De repente, percebi que os olhos deles ficavam tão marejados quanto os meus.

Se engana quem pensa que empreender é uma decisão fácil. Envolve sonhos, ambições, perspectivas, famílias, finanças. Uma escritora que admiro muito diz que “cada pessoa é um mundo”.  E empreender é mexer com o seu mundo e vários outros.

Acredito que muito do sucesso de uma empresa está nas pessoas que cercam o empreendedor. E eu nem falo da compreensão das ausências que acontecem quando você precisa (muitas vezes não quer, mas precisa) se dedicar ao seu negócio e nas conversas monotemáticas em que parece que o seu universo é aquela empresa que ainda nem nasceu direito. Falo de apoio.

Existem momentos em que só você acreditar no seu negócio aumenta a solidão da liderança. Mas também existem momentos em que você precisa que as pessoas ao seu redor simplesmente aceitem uma decisão depois de tomada. Absolutamente ninguém conhece a empresa melhor do que o seu próprio fundador. Digo isso nos primeiros anos, claro.

Este executivo com quem conversei falou do pior momento da sua trajetória como se fosse o melhor. Talvez porque no auge da sua descrença em si mesmo, encontrou pessoas que entenderam que ter uma empresa na verdade é ter um sonho, e que ninguém quer abrir mão de um sonho. Ainda mais porque muitas vezes ele está só na sua imaginação.

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