Eu comi o Xico Sá

Foi tudo culpa do Nelson. O Rodrigues. Eu usava uma camiseta com a cara dele quando cheguei ao boteco. Vi o conhecido óculos lá no canto, numa mesa de amigos, com copos americanos, cervejas baratas e chinelos de dedo.

No primeiro sinal de banheiro feminino – ó oásis das mulheres aflitas e tramando flertes! – mal fechei a porta quando perguntei se o tal era mesmo como falavam. Bom, se ele não se faz de rogado, quem sou eu para tentar me fazer? Decidi que ia comer o Xico Sá.

Poucos fingimentos são tão bacanas para as mulheres quanto o desinteresse. Em se tratando de uma leitora antiga que cita minúcias do autor em papos de bar, ali era cenário fácil. Provoquei algumas discussões em que estaríamos em lados opostos – o bendito tesão da divergência – até que ele soltou o “Nelson estaria estupefato com você”. Ele reparou na camiseta, agora seria fácil de tirá-la.

Algumas cervejas depois, vamos terminar esse papo em outro lugar, o bar está fechando, deixa que eu pago a conta porque sou jurubeba mas nem tanto, fica com a chave do apê, Xico não dirige, não sou daqui, vamos de táxi, qual é a senha do portão, onde está a cerveja gelada e o papo no tapete rolava solto quando me entreguei: alguém ainda acredita que você não saiba a diferença entre celulite e estria?

Xico ri e solta um “desgraçada”. Tenta explicar que não sabe mesmo e me faço de boba. Sabia que em 1993 enquanto você entrevistava o PC eu estava ansiosa pela minha festa de cinco anos? Pois é. Nabokov sempre trai os homens.

Sem assepsia, no tapete da sala, enquanto o zelador colocava a Folha por debaixo da porta, eu comi Xico Sá.

Sim, a tatuagem é “a vida é crônica”. Leminski da Curitiba fria, ao contrário da pornochanchada nordestina. Papo filosófico pra madrugada, pra falta de roupa, pra situação. Acendemos um cigarro e falamos da vida sem rodeios, de sotaques recifenses e catarinas, dos artifícios dos cronistas, de como Nelson viveria neste mundo de hoje, do cotidiano encantador de qualquer pessoa comum, de começar textos pelo final.

Quando Xico bateu a porta, tive certeza que ele sabe a diferença entre estria e celulite. Certeza também que ele sempre soube que eu queria comê-lo. Mas a gentileza masculina e a ficção sempre nos permitem algumas deliciosas incertezas.

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