Clichê

Eu poderia ter te conhecido no parque e ia ser lindo. Folhas de outono caindo pelo gramado úmido numa tarde de domingo e você de camiseta branca – algum dia disse que tenho verdadeira tara por camiseta branca?. E eu sentada no chão do parque e você chega e a gente se olha e sorri. E conversa. E andamos abraçados com os braços encaixados porque meu ombro deve encaixar no teu. E a gente ia sair e tomar um café. E seria lindo.

Ou a gente poderia ter se conhecido num show daquela banda que você adora e eu nem consegui te dizer que eu detesto. Mas eu iria porque essas coisas de destino são mesmo assim. Um dia a gente está num lugar que nem sabe por que chegou e acaba no mesmo lugar tendo certeza de porque chegou. E eu ia estar com cara de emburrada encostada numa parede e você ia curtir o show inteiro e a gente ia se olhar e eu ia pensar “idiota cantando essas músicas nojentas” e você ia me encostar na parede e me mostrar como não ouvir som algum.

Ou, quem sabe, podia ser num cinema. Você gosta de ir ao cinema sozinho e eu também, então podia ser um comédia romântica daquelas que a gente sabe que vai ser ruim e por isso é tão bom sentar na poltrona sem expectativa nenhuma. Podia ser assim: só tem um lugar, você senta ao meu lado e no meio do filme a gente olha pra frente e só tem casais se beijando e toca uma música bonitinha de filme clichê e a gente se olha e se beija. E sai dali direto para o cartório.

Pensando bem, a gente podia se conhecer num desses eventos bacanas, tipo formaturas. Você ia estar de terno e eu com aquele meu vestido. E, claro, sua gravata ia combinar comigo e seus olhos iam combinar com os meus. E você me tiraria pra dançar. E a gente dançaria, e riria, e beberia. E eu tiraria seu terno, você meu vestido.

Mas a gente não e conheceu. Quer dizer, eu sei tudo sobre você e te conheço como a palma da minha mão. Mas só nas minhas palmas e não no meu corpo inteiro. Porque as cartas que um dia, sem aviso, invadiram minha caixa de correspondência sem endereço de remetente me deixam sem resposta. E eu nem posso fazer perguntas.

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3 comentários em “Clichê

  1. Seria ótimo se pudessemos escrever alguns acontecimentos que a gente deseja que aconteçam e que por ironia do destino acontecem de maneira totalmente contrária..
    Que massa que você postou novamente. Eu tava com saudades de ler. srsrs

  2. É tão gostoso quando a gente lê algo onde parece que o autor(a) veio e leu nossos pensamentos mais encondidinhos, indecifráveis, inconcientes, como aqui está, traduzido em lindas letras.

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