Chuva ácida

Era como se o dia não tivesse acordado e na verdade quem não queria acordar era eu. Era o primeiro de muitos dias que estavam por vir e eu só queria que eles estivessem por voltar porque a volta é sempre mais segura, mesmo que mais infeliz. Chovia e eu não sabia que horas eram porque não importa que horas são se você não tem planos e as gotas que pareciam grossas no ar condicionado eram quase um mantra pra que o dia não acordasse.

Chovia e as crianças gritavam e tomavam banho na chuva e eu quis pensar que todas as crianças do mundo são insuportáveis, mas aí eu ouvi uma voz daquelas esganiçadas e desafinadas dizendo que parecia aquele filme que as pessoas cantam e dançam. E eu pensei que ia ser bonito se eu tivesse um filho pra fazer assistir Cantando na Chuva e que se ela tivesse os seus olhos ia ser lindo.

Meus olhos nem fechados ficavam, eu acordei e fui fazer meu café. Parecia que o Juan Valdez me olhava com pena, mas nem olhos ele tinha e era pena o que ele sentia, eu vi.

Era café amargo, assim como era gosto de amargo na boca e nos olhos e chovia tanto, que não dava pra enxergar a rua. Eu não tinha mesmo caminhos pra seguir.

Tomei o café com raiva da sua mania de não dividir comigo a xícara e querer dividir comigo a vida inteira. Nunca entendi como é que alguém que não toma café pode ser tão apaixonante e como pode ser tão entrega a minha paixão quase abstinente.

Eu deitei no sofá e pensei como era bonito quando eu deitava em cima de você, com a cabeça no fortinho do seu peito, e parecia que as coisas simplesmente eram pra ser assim. Se você era um quebra-cabeça, eu tinha certeza que era a última peça que faltava. De repente eu era, de novo e sempre e até quando?, a peça única de uma paisagem que ninguém sabe qual é. O meu sofá é só mais um cenário pra minha solidão que tão rápido fica protagonista.

Chovia e fazia um sol delirante e eu queria acreditar tanto num arco-íris – mesmo com as tuas cores gris – mas foi só eu pensar no céu azul que se fez a tempestade e cada raio que caia partia em mil uma inteira que nunca tive certeza se fui.

Foi meu primeiro dia sem você depois de não ter te tido de verdade nem por um dia. E enquanto chovia lá fora, o vidro da janela teve seu dia de espelho. Eu chovi por dentro.

E descobri que chuva ácida corrói todas as certezas. As nossas certezas de um nós que, no final, sempre fui eu.

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4 comentários em “Chuva ácida

  1. Tão lindo esse teu chover por dentro. Sem querer, é exatamente o que me acontece hoje: inundação; mas apesar das nuvens lá fora, Marina, lá não chove: parece que só aqui vai haver inundação.

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