sós

Quando eu acordei, quase dormindo e sem querer, eu só queria. E o só querer é tão verdadeiro que me deu uma vontade de vomitar, de sair correndo pelada na rua e de me enfiar embaixo do meu edredom e nunca mais levantar. Tudo junto. Mas não fiz nada disso, porque eu só conseguia querer e o querer paralisa todos os outros fazeres. E eu levantei, sem querer, porque eu queria demais. E o chuveiro me limpou de sono, mas o querer não sai com água, nem com sabonete, nem com toalha quase rasgando a pele suja de quereres e sem perceber eu dirigi, trabalhei, pensei, criei e voltei, mas não fiz nada disso sozinha porque o querer não me deixou em paz e querer o que não se tem e paz são duas coisas impossíveis de existirem juntas. E quando eu deitei na cama, eu queria, só queria, queria mais do que respirar, mais do que sorvete, mais do que cachaça, mais do que sexo, mais do que dinheiro, mais do que samba, mais do que o próximo suspiro vão. E aí eu chorei. Como só eu queria. Como queria, só eu. Como eu queria, só. E só.

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5 comentários em “sós

  1. o “Querer” como inimigo é real e cruel e é Schoppenhauer, o cara da melancolia. Tô lendo. Faz tempo que tô no começo do livro (o mundo como vontade e representação – parte 3 ) mas tô lendo. E tu, vivendo (ou parece) e alimentando tua literatura com essas humanidades. São elas que valem.

    beijo

  2. chamo isso de ‘quererismo exacerbado’. tenho demais isso. e quando tenho, ou choro ou escrevo ou não faço nada. assim como voce :)

    ;**

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