A estante

Ficou muita coisa em mim dos nossos planos. Mas nada – nenhuma viagem, salto de parapente ou coisa que o valha – é mais doloroso do que lembrar a nossa estante. Naquela lista de coisas que a gente fez pra comprar quando fossemos morar juntos, além de cortinas, o lugar que marcaria de verdade que dali pra frente éramos nós dois.

Na nossa estante, o seu Voltaire e o meu Nietzsche estariam lado a lado. Seriam complementares os Irvin Yalom – o seu Schopenhauer e o meu Seymour Trotter – e completamente antagônicos os meus poetas e os seus sociólogos. Entre todas as histórias contadas nas páginas que estariam na nossa estante, estaria o começo da nossa e uma das suas grandes conquistas. Estaria o último livro que eu li, do André Gorz, que me fez vontade de escrever pra você. E eu teria escrito se tivesse estante.

Em algum lugar da nossa estante, estariam cenas de cinema. Repetidos céus de baunilha e Amelié Poulains, só seus John Malkovich e David Gale e os só meus Closer e Juno. Os filmes que me fazem dormir e que você se recusa a ver estariam juntos, só pra lembrar que a gente tem tantas diferenças que parece mesmo ser igual. É certo que, pelo menos, em estantes separadas, cada um de nós fica com o seu Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Na nossa estante teria lugar também pra fotografias. Aquelas do primeiro passeio na praia ou ainda a nossa melhor foto: aquela valsa. Seriam os sentimentos que a câmera conseguisse captar nos olhos, nas mãos, nos sorrisos – nossa marca mais constante.

Os vinis e os CDs ficam um do lado do outro, exatamente pra nos lembrar como a gente gosta do presente. Os rocks (ingleses ou não), os sambas (de gafieira ou não), os forrós. Ao lado da estante ficaria o seu violão. O velho de guerra que me fez acordar tantos dias, estaria ali pra mostrar que a vida sempre começa de novo e todos os dias eu corria o sério risco de acordar com uma nova canção.

Eu conseguia me imaginar sentada no sofá, esperando você chegar, olhando para a nossa estante e pensando em nós dois. E mesmo que eu continuasse sentada, esperando, eu não consigo mais ver a nossa estante. Talvez porque a certeza que você se dividiria comigo se foi. E agora sobra espaço.

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