Não me mande carta

Tenho cortinas. E uma casa. E contas. E uma porta lindamente pintada por um amigo-artista. Tenho também uma estante com meus DVDs ordenados, os livros que eu mais recorro, meus saudosos e empoeirados vinis. E uma cafeteira que não pára de funcionar nem nas madrugadas insones. Tenho uma vida. Minha vida. Tenho a mim. Só. Tenho só a mim. 

É como estar com desejos constantes de ser o que não se sabe que é. Uma quase gravidez de si. E quando as dores começam, não é sinal de parto, não. É se sentir morrendo pra começar de novo. Tudo de novo. Igual e diferente. E não tem ultrasom. Vai ser do jeito que é, que está sendo, e pronto. Sem previsões de olhos, sorrisos, bocas ou lágrimas.

Leio rótulos de alimentos, agora. Não por preocupação com a minha saúde. Só porque enquanto eu como e não tenho com quem dividir uma palavra, ouço as gargalhadas das famílias vizinhas. E enquanto do lado de lá se tem direito a cachorro e bebê, eu não tenho com quem opinar sobre o manjericão da comida. E aprendo sobre composição de alimentos.

Também tenho escrito. Muito. Tenho até gostado de coisa ou outra. Cartas para ninguém se acumulam. Para alguéns que um dia existiram (existirão). Histórias de seres tão reais que invariavelmente imaginários. Minhas histórias. Histórias deles. Segredos nossos.

Mais do que morar sozinha e conversar com personagens que sempre me respondem a altura, moro em mim e converso com os meus eus com outros nomes e rostos.

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7 comentários em “Não me mande carta

  1. eu também lia rótulos quando morava sozinho.
    Por issoque gosto de produtos naturais. Eles sempre trazem textos otimistas para gente de bem com a vida, que tornam nosso almoço mais agradável.

    Já chegasse na fase de ligar a televisão e o rádio ao mesmo tempo, só para parecer que a casa está lotada?

  2. ja faz alguns dias que eu descobri isso tudo aqui, te confesso que peguei pra mim, preciso de uma dose desses textos todos os dias, me fortalece, alguns parecem ate que me descrevem com detalhes, seu Dom, tem todos os meritos e minha admiração divulgada aos quatro cantos! boas

  3. Me lembrou uma coisa que estudei em literatura esses dias, chamada heterônimos, que o autor criou personagens que eram pessoas reais, com nome, data de nascimento e identidade. E assim como parece ser você, mesmo que não crie nada, mas converse com seus eus, o autor também conversava com esses personagens, que, de alguma forma, eram versões mais profundas dele mesmo =D

    ;***
    Adoro aqui.

  4. Quem conhece só a fantasia, nem mesmo a fantasia pode apreciar. Texto tão melancólico, tão solitário, que me lembra uma menina que não teve pai. Um texto de pura promessa, de puro amor.

  5. Também preciso me encontrar sozinha com meus eus, encara-los de frente…entende-los melhor…
    Ótimo texto, Marina. Beijos

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