Desconcerto

E você falava do teu livro, teu novo livro. Da história, do personagem, não sei. Tu sorrias com uma delicada expectativa envolta numa completa confusão. E eu parei o mundo, paralisei meus sentidos e acho que até pouco me importava respirar naquele instante. E eu te ouvia, juro que ouvia, só te ouvia. Até te sei repetir. 

Senti, mais uma vez, um impulso crescendo. Eu, que geralmente nem os deixo nascer, sem querer me percebi tomada. E eu desviei o olhar para o lago, vazio. E eu mentalizei o vazio pra tentar controlar a avalanche que me vinha cheia. Mas você me trouxe de volta sem gritar, sem chamar. Só me olhando. 

E eu te olhei novamente, explicando capítulos e cronologias. Tinhas nas mãos, aquelas que não param um segundo sequer de demonstrar inquietação, uma paixão mal resolvida. Uma complicada relação entre criador e criatura, que nos teus gestos frágeis se tornava mais uma bonita melancolia. És, de fato, um apaixonado.

Sorrias e olhavas para o nada, como se ele pudesse te dar respostas. Eu quis te chacoalhar, como fazes comigo usando palavras, e te dizer que não havia respostas no vazio. E quando fui tentar montar uma frase, soou forte um alerta no meu peito. E você voltou a olhar nos meus olhos e se mantendo ali, mesmo que soubesse que eu era só perguntas e que não te traria resposta alguma. 

A onda vinha e as palmas das minhas mãos sentiam um calor quase anestésico. Um impulso forte, que eu tentei controlar algumas vezes. E você falava, sem nenhuma arrogância poética. De repente, um som saiu da minha boca. Pela primeira vez, em muito tempo, eu não pensei. 

E eu te pedi pra parar e tu me olhaste com uma expectativa tão maluca no brilho dos olhos, que eu não saberia descrever nas nossas palavras. E você me confiou uma atitude. Parou, paralisou. E eu levantei. E eu te beijei a testa. Com a sutileza de uma desconhecida, com a emoção simples que me trazes. E tu sorriste novamente, desconcertado. E desconcertante.

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8 comentários em “Desconcerto

  1. Desconcertado fico eu ao reviver, assim, momentos tão únicos. Não tenho palavras pra te agradecer por isso. Envio um sorriso sem timidez como agradecimento, então. E um abraço e um beijo.

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