Corcel vermelho

No trânsito infernal, acompanhado docemente de um calor ainda mais infernal, todos os sinais fazem o favor de fechar. Se lei de Murphy fosse uma matéria de jornal, eu seria o case perfeito. Quanto mais pressa, mais cansaço, mais vontade de chegar em casa, pior. É bem fácil de explicar: eu tinha passado numa daquelas livrarias-DVDriais-CDrias e deixado lá mais da metade do meu décimo terceiro. Afinal de contas, nada melhor do que se encher de cultura pra preencher o vazio. E eu queria preencher a porra do vazio rápido. E o sinal, claro, ainda estava fechado.

Na minha frente, pára um Corcel vermelho. Eu quase bato nele. Ou a luz de freio estava mesmo quebrada ou a sujeira não deixava que eu a visse. De qualquer forma, quase bati no Corcel vermelho. Depois de ter reparado na falta de cuidado ou na sujeira – e, claro, comparado com meu carro que pode ser pequeninho, mas estava uma formosura de cheiroso – olhei para o motorista para emitir algum xingamento ou, no mínimo, fazer uma cara das mais feias. 

Um cara daqueles bem mais-ou-menos bonitos tocava carinhosamente o rosto de uma menina daquelas mais-ou-menos bonitas. Com a ponta dos dedos e como se estivesse tocando um dos meus livros, filmes e CDs. Ela olhava pra ele com um quase sorriso tímido, enquanto ele a observava com olhar de adoração. Quando minha mão estava quase posicionada para mostrar o dedo do meio, ela caiu no meu colo, completamente broxa.

O cara se aproximou e beijou a menina sutilmente. Acho que foi o beijo mais lindo que eu já vi na vida. Um beijo até meio burro, meio infantil. Enquanto ele a beijava, colocou a mão delicadamente no seu pescoço. Aquele tipo de coisa mínima, mas que separa os safados dos homens de verdade. Foda-se a sujeira, fodam-se as luzes de freio, fodam-se as crostas de sujeira. Eles estavam trocando o beijo mais lindo do mundo no Corcel vermelho. 

Eu baixei a cabeça. Depois olhei para o banco ao lado. Três livros fantásticos, dois filmes maravilhosos e três CDs sonhos de consumo. Eles, que eram meus companheiros perfeitos para a solidão, se tornaram estranhos objetos frios. Eles eram tão pouco, tão nada, que eu quase podia ver o acento vazio. Eu estava num carro cheiroso e só queria sentir o fedor do Corcel vermelho. 

Quando eu olhei de novo, eles riam. Uma gargalhada gostosa, apaixonada, emocionante. E as pontas dos dedos dele faziam cafuné nos despenteados cabelos dela. Pela posição das mãos, ela tinha colocado a mão na perna dele. Aquela típica cena de namorados apaixonados. E as pontas dos dedos dele lá. Imersas na sujeira do Corcel, felizes infiltradas entre os cabelos dela. 

O sinal abriu e eles foram para o outro lado. Fui pra casa. Eu e os meus CDs. Eu e os filmes cult. Eu e os livros bacanas. Eu e a inveja do Corcel vermelho imundo.

Anúncios

8 comentários em “Corcel vermelho

  1. Não adianta ter um carro lindo, uma casa linda, um emprego lindo e roupas lindas, se a sujeira toda tá escondida do lado de dentro.

    Um pouco de sujeira às vezes dá pelo menos um aconchego, uma falsa impressão de normalidade.

  2. Maldito corcel vermelho. Se a janela fosse uma tela de cinema não seria tão ruim. Mas a realidade é que existem amores de verdade, ao contrário do cinema. E é tão cuti-cuti de ver. As vezes me dava inveja também. Mas agora não tenho mais esse problema ;]

    Matheus

  3. Cara, adorei esse texto!

    Não respondesse aos meus últimos e-mails, qq tá rolando? Sei que tua vida anda meio movimentada (pelo menos mais que a minha, o que não é dificil)… mas é um emailinho né cara de chulé?

    Tô tomada por mais uma dor de garganta, a gripe me pegou de jeito.. tô precisando de um suco de laranja pra repor a vitamina c, qq achas?

    Que papo doente! :x

    beijo beijo

  4. Te adorei a primeira vista, ou seia primeira leitura, já não sei dizer, ainda estou meio atordoada.

    Essa forma de escrever, não sei se o que digo será pra você elogio ou insulto, lembrou Lolita Pille, autora de Hell Paris (um livro que eu adoro e outros tantos odeiam).

    Parece que tudo que precisava foi dito, o pensamento captado naturalmente, o vislumbre de um momento que significa tudo. Curto, intenso e perfeito.

    Mas já não sei se é realmente perfeito ou se só me identifiquei com o estilo de quem o narrou. Vou saber a seguir quando ler os demais posts e, me desculpe, mas sinto que comentando aqui estou perdendo tempo de descobrir outras perólas.

    Até mais

  5. Afinal de contas, nada melhor do que se encher de cultura pra preencher o vazio…

    Essa eu vou levar pra mim…

    Beijo

O que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s