A escova de dente

Minha vida nunca esteve tão esquisita. Ao mesmo tempo que é a fase mais tranqüila da minha vida – mais longe ainda de baladas, mais perto ainda dos meus livros e discos – é a mais nervosa. Nas próximas semanas (eu disse se-ma-nas) vou saber onde vou morar e começar a planejar, de fato, as coisas pra esse ano. Como se a bonança tivesse chego antes da tempestade, uma coisa louca demais.

Aproveitando a expectativa pra sair de casa e arrumar todo o meu canto, hoje fiz uma limpa em todas as minhas caixas. Aquelas onde estão guardadas todos os bilhetes, fotos, pulseiras e lembranças de todas as épocas. Até cartões da festa de quinze anos eu achei. Minha rinite atacou e eu fingi que meus olhos encheram de lágrimas por causa dela. Sabe como é, admitir chorar pelo leite derramado não é uma coisa que me agrade muito.

Também aproveitei pra jogar fora todos os restinhos de perfume, já que o cheiro tem que se de coisa nova. Todo o tipo de resto foi parar na lata do lixo, que já estava abarrotada das minhas meias histórias.

Foi aí o momento mais triste de todo o meu dia. Eu encontrei a escova de dente dele, que depois daquele término esquisito, eu tinha guardado cuidadosamente protegida de todos os efeitos do tempo. Cuidei dela como se fosse meu coração. Ela mudou de lugar, de posição, foi esquecida e por hora parecia nem existir. Mas sempre esteve lá, um cuidado, uma esperança de que um dia pudesse sair do plástico.

Eu a peguei com cuidado. Abri o plástico. Ela estava dura, não via água há meses. Mas não tinha problema, era só colocá-la embaixo da torneira que ela voltaria ao seu normal. Só tinha um problema: eu não queria que ela voltasse ao normal. Olhei para a lata de lixo, deixa-a com cuidado junto a tudo aquilo que foi passado. Agora era oficial, ela não teria futuro algum. Meu olho não encheu de lágrimas devagar, como numa cena de novela. Uma lágrima sozinha e rápida caiu. Sem nenhuma emoção, só pela certeza de que a minha última esperança na simplicidade do amor, que naquele momento era uma escova de dente velha e dura, estava indo embora.

Foi preciso uma escova de dente pra me mostrar que aquele monte de papéis e objetos na lata de lixo era o abandono de muitas esperanças. Foi preciso uma escova de dente pra me fazer perceber que o luto pelo fim de um amor sempre ataca quando o coração, embrulhado, não consegue mais se esconder. E foi ela, a escova de dente, que me fez acreditar que mesmo com mais dúvidas do que esperanças temos sempre a lata de lixo como uma boa opção.

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11 comentários em “A escova de dente

  1. ah, marina. tu consegue acertar direitinho naquela coisinha que a gente tá sentindo, assim como a tua temida agulha de acupuntura. valeu.

  2. Quero uma lata de lixo. Preciso me livrar de alguns sentimento, alguns desejos e principalmente de uma angústia idiota que me toma todas as madrugas.

    É estranho como teus textos parecem se encaixar tão bem a minha vida. Ou algo do passado, ou algo imediato. Talvez seja porque sinto teu coração tão perto do meu que às vezes acho que estou te abraçando.

  3. Grande lata de lixo! Descartar é mesmo um exercício importante pra começar bem uma nova fase. Boa casa nova pra ti, e que ela receba muitos objetos a serem descartados em outra oportunidade.

  4. Isso me emociona
    suas palavras são lindas.. profundas..
    sabe as vezes me vejo na msma situação..
    vendo cartas.. fotos.. pulseiras, td q me da nostalgia.. saudade do tempo de colegio.. de paquerinhas… eu era feliz e naum sabia… qndo vc abre aquela carta.. ou lë aquela agenda velha e sente aquele friu na barriga.. rs

    BeijO grande

  5. Eu não sei, sou um tanto melancólica, um tanto amante das histórias não acontecidas e enalteço um tanto mais a realidade que só vivi nos sonhos mais absurdos…

    Parabéns pelo passo. Um dia eu chego lá também…

  6. Marina … tô aqui torcendo … e vendo que estás ficando mulherzuda ….

    vejo além da lata de lixo a hora da construção …
    vai em frente e não deixe coisas velhas se acumularem nos cantos ….

  7. Marina … tô aqui torcendo … e vendo que estás ficando mulherzuda ….

    vejo além da lata de lixo a hora da construção …
    vai em frente e não deixe coisas velhas se acumularem nos cantos ….

    … Marina .. corrige aí a troca de identidade .. o comentário é meu, não do Daniel ….

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