Meio torta

Sabe A Metamorfose, né? O Kafka, aquele nojento. Hoje eu me senti como naquele primeiro capítulo, quando se acorda um monstro indecifrável. Fiquei uns quinze minutos olhando pro teto, com medo de me mexer. Acho que tô criando asas – mas não se preocupa, é aquelas de moscas que ficam passando em cima da merda, e não de anjos que de tão bons ganham o direito de não voltar mais.

Aí eu quis dizer pra alguém como é estranho ter mudado tanto em tão pouco tempo e como é cruel ter medo da vida. Pensei no jeito de dizer e até nas minhas analogias meio bestas que soam como piada e não como tragédia. Até lembrar que eu não tinha absolutamente ninguém pra conversar. É, eu sei. Tenho ser auto-suficiente, ter meus dois braços e minhas duas pernas. Mas é difícil pra cacete ter escoliose e ainda ter que andar reta. Pelo menos sabes que eu sou meio torta.

Esse papo todo de ter que ser independente, tomar decisões, pagar mensalidade da faculdade, agüentar xingamento de gente imbecil, ter que ser criativo, bacana, tomar cerveja com a galera pra socializar, tomar remédio escondida pra dormir, chorar trancada no quarto pra mãe não ver, entregar trabalho, receber elogios, fazer entrevistas, dar conselhos, entender os outros, fazer compras, organizar agendas, falar no MSN, Orkut, Fotolog, Blog, celular, telefone e ainda olhar pro espelho e não surtar deve ser uma coisa pra gente louca. Eu sou estranha, mas não louca. Talvez até louca, mas não tanto.

Não tenho mais saco pra papo de gente acéfala, mesmo sendo uma; de gente louca, mesmo gostando de uns; de gente feliz, mesmo querendo ser uma; de gente triste, mesmo que até goste; de gente maneira, mesmo invejando alguns. Não tenho mais saco pra conversa idiota. Não acho mais a coisa mais legal do mundo saber que o editor-chefe-boa-pinta do jornal da cidade pega a morena-gorda-do-atendimento. Danem-se eles. Ou melhor, fodam-se eles.

É tão chata essa história de escrever uma mensagem com a fala do filme mais maneiro do ano e não ter pra quem mandar, que eu acho que nem vou mais no cinema. Nem ouço música, nem leio livros, nem falo mais com ninguém. Não tem graça nenhuma pirar na vida sozinha. Me dá preguiça e eu esqueço que eu consigo pensar. Deveria não conseguir mesmo.

Tô tão de saco cheio das pessoas e tão mais de saco cheio da falta delas, que eu encho o saco até de mim. E eu tenho que ser bacana, independente, bem sucedida, sociável. Aí eu não sou nada disso, o saco enche, explode e eu viro nada. O completo vazio. Um vazio torto. E você me disse que como eu era torta pra todos os lados, ia compensar. Eu espero que essa loucura toda um dia compense mesmo. 

E o troféu melhor de 2008 vai pro cara reto, que recebeu esse e-mail, comeu o último pão de queijo e me mandou a merda. Tudo isso numa resposta que calou minha boca e me devolveu o chão.

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4 comentários em “Meio torta

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