O silêncio e eu

Eu escrevo um e-mail falando sobre mim. Egoísmo mesmo. Aí não tenho pra quem mandar e salvo o arquivo com nome de reticências. Um erro me avisa que já existem três arquivos com esse nome, seguidos de números e letras desconexas. Eu nunca tenho nada de novo a dizer mesmo. 

Aí eu percebo que já está na hora do dia começar, mesmo que eu não queira ver ninguém. Quando vejo uma sinaleira, ao invés de me apressar, eu piso de leve no freio. Eu me aproximo até que ela feche, só pra ficar no carro ouvindo alto algumas boas frases me traduzirem como ninguém. 

Chego no trabalho, coloco os fones no ouvido e reluto ao atender o telefone cada vez que ele toca. Sou simpática sem querer e até arrisco uma brincadeirinha ou outra, pra que não descubram que sequei por dentro. A manhã voa e, da minha lista, sobram coisas pra fazer e faltam tarefas cumpridas. 

Aí chega o almoço. Eu saio, sozinha. Viro as costas e o rosto pra alguns poucos conhecidos e rezo pra que mesmo aquele cara, que eu considero demais, não me veja. Dá certo e o silêncio da minha refeição só não é silêncio porque o shopping movimentado teima em me mostrar como as pessoas são felizes e como conversar é divertido.

Depois do café – esse, sim, imerso em um silêncio e uma paz interior incomparáveis, vou conhecer a nova livraria. Já na primeira sessão, tenho vontade de matar o desgraçado que resolveu colocar todos os livros legais do mundo no mesmo lugar e perto de mim. Escolho dois. Companheiros perfeitos pra um final de semana silencioso.

E aí eu vou pra faculdade, que é cheia de pessoas bacanas e idéias legais. Das quatro horas de aula, passo três lendo e uma rabiscando alguma das atividades sem nexo que temos pra fazer. Nos intervalos, corredores, barulhos e risadas. Inclusive minhas. Pareço observar tudo de longe, mesmo estando ali. Nunca estou em mim, sou eterna expectadora.

E assim passam os dias. E assim eu aprendo a lidar com o silêncio e descubro que a minha paciência com os outros se esgotou a medida em que a convivência com o lado de dentro ficou mais calma. Eu escolho o silêncio e a solidão. Eles não castram os meus pensamentos, as minhas idéias e os meus sentimentos. Eles deixam ser. E eu vivo o estar.

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6 comentários em “O silêncio e eu

  1. acho tenso te ver tentando viver numa bolha… mas se é por opção, cada um tem a sua… beijos, se cuida!

  2. “…E assim passam os dias. E assim eu aprendo a lidar com o silêncio e descubro que a minha paciência com os outros se esgotou a medida em que a convivência com o lado de dentro ficou mais calma. Eu escolho o silêncio e a solidão. Eles não castram os meus pensamentos, as minhas idéias e os meus sentimentos. Eles deixam ser. E eu vivo o estar.”

    Isso foi muito próximo da perfeição!!!!

    Bom… pelo menos descobri que não sou o único nesse mundo que anda preferindo a autocompanhia, mas essa busca interna é fundamental.
    Apesar de, no meu caso, a convivência com o lado de dentro não está nem um pouco calma, brigo demais comigo mesmo. Talvez por isso me retiro, pois roupa suja se lava em casa.

    Muito bom!
    Big bjoo

  3. Coincidência ou não, tb ando muito mais quieta do que de costume. Confesso que há nisso certa melancolia. Mas há coisas piores…
    Beijos.

  4. Acho que foi Roberto Freire que disse:

    “Essa relatividade do poder criativo, na qual a parte (cada criador) é também e sobretudo o escoador da potencialidade do todo (a espécie, a sociedade), pode também ser percebida de um jeito inverso. No meu caso, sempre foi muito comum eu sentir a influência do inconsciente coletivo na minha identificação com a obra de alguns poetas. Costumo dizer, com envergonhada honestidade ou com humilde paranóia, que todos os poemas de Fernando Pessoa são meus, como se ele apenas estivesse revelado em seus versos o que já estava pronto poeticamente em mim”.

    Lembrei desse trecho dele porque o teu trecho “descubro que a minha paciência com os outros se esgotou a medida em que a convivência com o lado de dentro ficou mais calma”, é como se fosse meu. Você revelou nessas palavras “o que já estava pronto poeticamente em mim.”

    Abraço!

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