A obviedade cotidiana

Tenho feito um constante exercício de tentar me livrar de meu vício em sofrer por você. Não coloco mais as músicas no aleatório, tenho medo de ligar a tevê e abrir meus e-mails sem imaginar uma resposta tua para as minhas desculpas que nunca chegaram tornou-se um suplício diário de não pensar. Eu tento evitar procurar notícias tuas e elas invadem a minha vida em fotos quadradas e pequenas. E irresistíveis.

Você deve estar com umas das moças bonitas que sempre surgiram na sua vida e desde que você se foi eu me infiltrei num luto tão pulsante que não consigo ver mais ninguém. Olha, acho que eu devo te ver umas vinte vezes por dia. Todos os rostos são teus, todas as vozes são tuas e em todas as fotos estão você. Nunca é você e começo a sentir saudades de quando te ver era só clicar duas vezes, e rápido como sempre foi meu impulso. Aí eu lembro que tenho que te esquecer e calo.

Desde que você se foi, veja só, o som do celular não me emocionou mais. Ele tem recebido bastante ligações, mas nenhuma delas faz o menor sentido porque nunca é você. E olha que a música não é mais a mesma que já foi a tua, também. Eu troquei pra não lembrar aquela tarde, e aí sempre que ele toca eu sinto falta da antiga música e das antigas sensações.

Eu também não consigo mais chorar. É que a emoção que eu vivia quando você estava por perto era tão verdadeira, que eu simplesmente não sinto nada. O vazio que você deixou chega muito perto do nada, mas se próxima muito de tudo. A dor é muito fraca perto da paixão. Eu queria desengasgar esse nó, que já virou novelo e trava meus sentidos e o gosto da vida.

Desde que você se foi eu contornei meu vício por café. Minha gastrite não berrou mais e agora são meias xícaras ao invés de garrafas inteiras. Hoje, o cheiro dele já me satisfaz, assim como ter certeza da tua felicidade longe. Até minha alergia a lactose melhorou, sabia? É que todos os capuccinos que eu tomava eram brindes silenciosos a volta da nossa crença, e não existe mais nada nosso, então eu conto nos dedos quantos consegui tomar.

Desde que você se foi, eu não consigo mais escrever de verdade. Eu corto as frases, picoto os pensamentos e acabo sempre usando a ordem direta. Meu charme era minha subliminaridade. E ela ainda é tua. Aí eu tenho que me exercitar pra te esquecer e esqueço também de quem eu era. Porque eu era você (pra você, de você), 24 horas por dia.

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5 comentários em “A obviedade cotidiana

  1. Se você está sentindo essa ausência da presença, então já é algo bom, porque mostra que voce pensa e sente alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja simplesmente o nada.

    E, da próxima vez, não tente ser 24h, diminua pra 12h, tanto tempo assim acaba enjoando.

    ;*

  2. Uma hora ainda espero ver um texto aqui dizendo que conseguisses enviar todas as cartas que escrevesses e ficaram na gaveta até agora… e que ligasses pra essa pessoa e pra todas as outras dos teus textos e falasses tudo isso que tais pensando… acho que seria a linha final entre a marina de antes e a que tá surgindo aos poucos, mais corajosa, enfrentando seus próprios medos… beijos!

  3. O comentário acima me impede de fazer um novo comentário. Só faria uma modificação sobre essa nova Marina que está surgindo. Lembra quando eu te disse para ter certeza que você não estaria fazendo aquela tatuagem em vão? Pois então, eu acho que foi. Falta coragem para trazer a reciprocidade de volta pra tua vida.

  4. vc consegue passar para o papel, td oq eu tbm sinto..

    porém, não tenho esse dom!

    belas palavras.
    parabéns e até bevre.
    beijo grande

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