Claro

Ela sabia que aquele era só mais uma das suas crises e estava plenamente disposta a deixá-la passar sem muitas conseqüências. Olhava para os confeitos coloridos de chocolate em cima da mesa, para o copo de café pela metade e para seu amigo imaginário amarelo e branco. Conseguia ver ali, a felicidade das pequenas coisas. Claro que era feliz, claro que era feliz, não tinha como não ser feliz.

Quando sentiu que o contraste do cotidiano já não era suficiente para mantê-la firme na crença da felicidade, pensou no seu trabalho. Era bem sucedida. Existia coisa melhor? Adorava o que fazia, borbulhavam planos, idéias e novos ideais. Surtiam efeitos de todo o esmero que dedicava a cada frase. Claro, era feliz, era feliz.

Apegou-se ao seu último romance. Desajeitado, descompromissado e imensamente intenso. Depois de muito tempo, ela conseguia juntar as partes do seu coração e considerar aprendizado todo o sofrimento. Ela podia dizer, de boca cheia, que sabia o que era respirar a existência de alguém. Por alguns instantes, voltou a acreditar e a crença cega a fez verdadeiramente feliz. Ela tocara numa felicidade tão ingênua e tão simples, que das boas lembranças ficava a certeza de ter acreditado no amor. Claro que era feliz, ela sabia o que era apaixonar-se. Era feliz, era feliz, tinha que ser feliz.

Pensou nos seus pais. Eram fortes, eram felizes, eram perfeitos. Mesmo nos piores erros, seguraram sua mão. Mesmo nos piores momentos, a fizeram acreditar nos seus sonhos. Eram os melhores do mundo e ela os amava com uma intensidade que jamais julgara natural. Eles a faziam feliz, pensar neles a fazia feliz. Claro, ela era feliz. Era feliz, era feliz.

Ela queria ser forte, queria ser forte, queria…

Não conseguiu impedir as poucas lágrimas inexplicáveis de cair, não conseguiu conter o nó na garganta e deixou que ele fosse até o peito e lhe sufocasse a alma. Entregou-se. Fraca, frágil, fácil. Soluçou num ato de desespero e dormiu. Claro que se sentia só. Era triste, era triste.

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8 comentários em “Claro

  1. Porque às vezes parece mesmo ingratidão que, com tantos motivos para sermos felizes, ainda assim a gente se sinta triste.
    Mas, sabe… De vez em quando acho que o conceito de felicidade que nos mostram está errado, ser feliz não é uma obrigação que devemos aplicar em nossas vidas todos os dias. Alguns dizem que é uma escolha… Se for verdade, ainda não cheguei nesse estágio evolutivo tão elevado a ponto de escolher o que sinto ou deixo de sentir. A gente sente e pronto. Alegria, tristeza, felicidade, angústia… E por que tem que haver lógica em tudo que sentimos? Onde está escrito que sentimentos podem ser racionalizados?
    Enfim, adorei o texto, como sempre vc descreve bem coisas que acontecem tanto comigo…
    Ah, eu não sei seu e-mail. Me manda um que eu envio o endereço na resposta… :)
    Um beijão.

  2. Eu juro que volto pra ler (:
    mas no momento se eu ler teu texto, se forem como tu me diz na sala, eu vou comocar a chorar aqui gracas ao meu anmorado que conseguiu comer erros tolos de novo :x
    HUAISHAUISHAUISHA

    mariiiina :*

  3. eu adoro esse teu jeito de escrever, e cada texto q eu leio vejo o qto tu se parece comigo na forma de pensar ;)
    o ser humano de qlquer forma busca a felicidade até atingí-la .

    ;*** marinaaa

  4. Eis ai um belo conflito de ideias :x
    mas apesar de tudo, no fundo eu AINDA acho que era feliz por que ela tinha muitas coisas boas na vida, principalemnte o confete colorido! :)~

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