Aquela ali

Aquela ali? Sentada num banco, sozinha no meio da rua mais movimentada da cidade? Ela está escrevendo alguma coisa. Na verdade, acho que nem ela sabe o que escreve. Olha em volta, levanta os ombros como quem expressa frio para alguém, mesmo que todos pareçam passar sem se importar ou reparar a sua presença.

Olha, ela tem os olhos inchados. Deve ser aquele tipo de pessoa que sorri para todo mundo e tenta resolver os problemas dos amigos, mas, escondida nos seus milhares de edredons chora e percebe o quanto é frágil. Por que eu acho que ela dorme com vários cobertores? Olha pra ela. Cheia de casacos e cachecóis. Talvez seja só uma forma de tentar aquecer um pouco a alma, que congela.

Riscou uma frase. Talvez um nome. Talvez ela queira escrever uma carta de amor. Mas ela não me parece a pessoa que acredita no amor. Acho que ela quer acreditar, mesmo que não consiga. Já sei. Ela deve ser aquele tipo de pessoa que acredita tanto no amor, que acaba percebendo que ele é daquele tipo de coisa que não se prova. Aí ela tenta falar sobre ele, mas nunca consegue, e se frustra a cada frase.

Esse que chegou e a cumprimentou deve ser só um conhecido. Aquelas pessoas da época de colégio que se cumprimenta por educação. Ela sorriu pra ele como quem pede pelo amor de Deus um abraço, mas ele não deve ter percebido. Quem sabe até goste dela, mas seja um imbecil. Coisas da vida.

Ela sentou, voltou a escrever. Encostou a cabeça na parte de trás do banco. O sol ilumina seu rosto e ela deve estar dando graças a Deus que pelo menos ele, o sol, está ali com ela. Baixou a cabeça e colocou a mão nos olhos. Parece estar chorando. Mas não soluça e não demonstra. Acho que são só lágrimas, aquelas que saem sem motivo e são quase uma prece por um pouco de amor-próprio. E se ela não acredita em amor, talvez saiba o que é isso.

Acho que alguma coisa a inspirou. Já faz alguns minutos que ela escreve sem parar.

Opa, parou. Ah, não. Parece que vai jogar o papel no lixo. Está rasgando em pedaços bem pequenos, parece que sente que está sendo observada, mesmo sem a menor chance de me ver. O papel foi pro lixo. Ela parece sofrer a cada pedaço que corta.

Aquela menina ali deve ser aquela que escreve, escreve, escreve e nunca se contenta. Deve ser aquela que tenta se manter distante do mundo, pra ver se ele a deixa respirar fundo e sentir um pouco de ar. Aquela ali deve procurar em cada um dos rostos que passa um motivo pra voltar a se sentir viva, e acaba percebendo que é sozinha e morre um pouco mais por dentro. Olhou o telefone e pela velocidade com que ele voltou pra bolsa, ninguém parece tê-la lembrado.

Ela deve estar indo pra casa, pros seus edredons. Talvez ela faça alguma loucura, ou quem sabe até faça alguma declaração por impulso – sim, ela me parece impulsiva. Quem sabe ela só vá pra qualquer outro lugar, mas a sensação de solidão não vai largar do seu pé, os casacos não vão aquecer seu peito e ela vai continuar sem entender seus próprios pensamentos e sentimentos. 

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6 comentários em “Aquela ali

  1. Concordo um pouco com a Jéssica!

    Mas… os tocos que a vida dá muitas vezes nos fazem ficar acuados, esperando que alguém ou algo venha nos salvar. Isso pode levar um tempão até percebermos que nada nem ninguém vai fazer algo, além de nós mesmos.

    Muito bom.

  2. “Quem sabe até goste dela, mas seja um imbecil. Coisas da vida.”

    Existem as pessoas fodas e as pessoas cotidianas. O ruim de ser uma pessoa foda é justamente isso daí. Seria tudo ótimo, se você não estivesse cercada de pessoas cotidianas, cujas atitudes são cotidianas e os sentimentos idem.
    Te admiro por você ser uma pessoa foda, de atitudes fodas. Esse imbecil cotidiano ali pode ser qualquer um, mas não seja você.

  3. Acho que essa menina deveria mesmo aproveitar o vento do inverno pra soltar pipa. Quem sabe descubra coisas que não falam. Bem mais que amor.
    E acho mesmo é que tu deveria sair de onde está e convida-la pra soltar essa pipa.

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