O amor de casa

Hoje de manhã eu vi a cena mais bonita que eu já vi na vida. Não foi nenhuma cachoeira, mas de uma beleza estonteantemente natural. Não foi nenhuma obra de arte, mas de um valor indescritível. Hoje de manhã eu acordei e vi meu pai e minha mãe abraçados no sofá.

Não que eles nunca demonstrem carinho na frente dos outros, aliás, o que não é novidade é vê-los trocando beijos em frente à geladeira, andando de mãos dadas na rua ou fazendo piadinhas e dedicando sorrisos sinceros um ao outro. Mas hoje foi diferente. Eu senti uma emoção diferente, que teve que ser disfarçada por uma timidez não-habitual.

Não sei se porque a minha taça de vinho é a única companhia real desta noite, não sei se porque dormir sozinha nesse frio e com essa chuva é extremamente depressivo. Mas eu fiquei emocionada em ver duas pessoas dividindo o mesmo sofá, depois de tantos anos, mesmo podendo estar confortavelmente deitados cada um de um lado da sala.

Aí me bateu uma carência gigante. Não que eles não me convidassem pra estar com eles em todos os momentos felizes, nada disso. Mas eu senti falta de um ombro pra chegar mais perto, de um braço pra não querer largar. Eu me senti a pessoa mais solitária do mundo, não porque eles não me dessem amor. Mas porque eles se amavam demais, e eu me sinto despreparada e desprevenida pra amar desse jeito.

Eu me senti a pessoa mais feliz do mundo por ter meus pais ali, querendo estar juntos como há 20 anos. Ao mesmo tempo, me senti a pessoa mais incompleta e incoerente do mundo, por poder ver tanto amor, viver com tanto amor, escrever tanto sobre amor e não saber amar.

Eu que sempre pensei que amor fosse uma sensação sufocante, vi ali a leveza e a sutileza. Eu que sempre pensei que amor exigisse guerras e lágrimas, vi ali a história da paz e dos sorrisos. Eu que sempre pensei que amor fosse digno de filmes, vi ali a vida real. Simples e memorável, como tudo o que é suficientemente bonito e real.

Por um minuto, lembrei de como é engraçado ouvir as brigas que eles têm por motivos bestas. A média de cinco minutos de argumentação de cada lado é quebrada por gargalhadas e piadinhas infames, que duram mais de meia hora. Por um dia, um dia inteiro, eu senti uma solidão profunda.

Minha mãe acabou de me chamar. Queria uma boa noite. Meu pai não está e há tempos ela não consegue dormir sem colocar os pés entre os pés dele. Quando eu crescer, não quero ter dinheiro, não quero ser famosa, não quero ser bacana. Só quero ter alguém que me faça querer dividir um sofá, mesmo sabendo que eu poderia estar mais confortável sozinha.

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4 comentários em “O amor de casa

  1. aaaiiiii….. Esse texto me emocionou!
    Esse amor leve, sem medida, recheado de sorrisos, abraços, carinho…. É isso o que todos buscamos, por mais que muitos digam que não. E com certeza minha querida amiga, todos sabemos amar desse jeito. Se não é assim, não é amor de verdade!
    Nem conheço teus pais (ainda), mas já os adoro!

  2. Não sou a pessoa mais certa para comentar sobre este assunto. Digo apenas que as suas palavras fizeram a muralha tremer.

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