Brincadeira de gente (mais ou menos) grande

Tranco a porta do quarto, coloco músicas que me fazem rebolar e ir até o chão. Faço caras e bocas no espelho, me sinto, por vezes, ridícula. Eu sei, fazia isso nos meus doze anos, imaginando como seriam as baladas que eu iria aos dezesseis, que depois foram adiadas para os dezessete, tiveram um pequeno gostinho nos dezoito, mas ainda não chegaram com o furor que sempre pretenderam.

Lembro quando os controles remotos eram meus celulares, o caderno aberto meu super-computador de última geração, as chaves do meu diário eram as da porta da frente da casa e do meu carro, que me levaria pra qualquer lugar. A brincadeira se tornou real e agora eu não preciso fingir nada disso, mas ainda me sinto numa brincadeira como aos doze. E olha que os vinte já batem na minha porta.

Pego um copo qualquer, finjo ser uma bebida alcoólica e tudo – se duvidar sou a pessoa que mais sabe ser bêbada sem beber, de tanto que ensaiei meu primeiro porre. Ali na frente vão estar os músicos, desse lado minhas amigas, daquele o cara que eu sempre quis conquistar. A porta do guarda roupa vai ser ele no lugar que a gente vai se encontrar e vai ser bacana.

Pessoas que nem percebem a minha existência nessa hora serão meus amigos e vão brindar comigo pela nossa noite. A pessoa mais popular do grupinho mais popular, amigo da banda mais popular, vai ser minha amiga e vai querer que eu fique lá, dançando com ela. Eu vou pedir licença, mas vou ter que sair, afinal de contas naquele lugar só existirão pessoas que eu gosto e que gostam de mim.

No meio da festa vai chegar aquele meu ex que eu desdenho feito louca, vai me cumprimentar com um abraço caloroso e vai me encarar valendo. Eu vou rir, me fazer de difícil e pensar “agora ta chovendo na minha horta, sai fora”. Sem contar os diversos sites de baladas que todo mundo olha toda segunda-feira, que vão estar cheios de fotos minhas.

O cara que eu sempre quis conquistar vai ser da banda. Assim ele vai ver que durante a festa tive vários interessados, vai querer me conquistar – sem contar que vou poder me divertir a noite inteira sem compromissos sociais de relacionamentos. No intervalo, vai vir falar comigo com a desculpa esfarrapada que eu posso beber na comanda dele, já que ele paga metade em tudo. Mas, em troca, vou ter que ficar até o final da festa pra devolver a dita pra ele. Eu vou me fazer de desentendida, agradecer com cara de inocente e sair correndo para o banheiro com um sorriso estampado na cara. Vou gritar e dar pulinhos idiotas, como eu sempre quis fazer.

Vai tocar a minha música, eu vou dançar valendo, minha melhor amiga vai estar hilariamente alcoolizada – e vai pegar o cara mais gotoso da festa, porque, afinal de contas eu sonho, mas tenho senso de ridículo. O show vai acabar, eu vou devolver a comanda e receber um beijo na boca bem dado por ter cuidado tão bem desse item tão precioso.

Vou dar uns bons amassos no cara que eu sempre quis conquistar. Mas não quero que ele se apaixone, não. No dia seguinte ele vai me convidar pra ir tomar uma cervejinha e ver o jogo do nosso time, eu vou e vai ser bacana. E a gente vai saindo, assim, numa boa. Talvez até eu fique com uns outros caras no meio disso tudo. Mas vai ser muito bom mesmo assim. Ele vai se oferecer pra pagar a conta dele, que agora é nossa. Eu vou aceitar, já que posso ser altamente cheia da grana, mas um cavalheirismo desse não se paga.

Vou pegar a chave do meu carro, colocar o meu CD bacana de músicas bacanas e ir até a minha casa. Sim, eu vou morar sozinha e vou chegar da balada e ir direto pro chuveiro sem medo de acordar ninguém.

Tudo na minha vida sempre foi assim, rigorosamente planejado, especulado, adiantado. Deve ser por isso que mesmo depois de tanto tempo eu ainda tenha a sensação de que nada foi como eu gostaria que fosse. E eu continuo com a brincadeira idiota de me sentir conquistadora, escritora e altamente divertida. Quem sabe um dia, ouvindo alguma das cinco mil bandas que eu curto, não chega um cara que toca numa banda e puxa um papo sobre música? Aí ele vai querer me pagar uma cerveja…

(Meados de 2006)

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6 comentários em “Brincadeira de gente (mais ou menos) grande

  1. Muitas vezes é bom fazermos alguns planos. Mas eu acho melhor deixar como está e deixar o destino tomar conta, apenas sendo levado, como vento e folha em outono.
    Mas acho que toda menina tem esse sonhozinho de conhecer um carinha de banda que chegue e lhe pague uma cerveja e começe a conversar sobre música…

  2. Moça, eu sempre fico de bobeira com os teus textos. Quando eu crescer, quero escrever como você.

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