Eu disse que ia te contar uma história, não disse, Cami?! Contar uma história bonita é sempre difícil porque a beleza da história não dá pra dizer, nem desenhar, nem gesticular. E é tão bonita a história, Cami. Daquelas que quando a gente fala, o olho brilha tanto – tanto – que até parece que a gente vai chorar, mas não é choro porque não tem mais lágrima. História que é bonita seca a gente de tristeza, Cami. É que quando a gente vai contar a história, ela derrete a gente por dentro, faz tatuagem arder e a gente sabe (é tão doído esse tal de saber) que o que arde na verdade é o peito. Essa história bonita, a mais bonita, que eu quero te contar, Cami, é pra fazer você dormir antes do beijo na testa de boa noite. Não é pra ter pesadelos, não, menina. A história bonita é triste no final, mas se é triste e mesmo assim é bonita, Cami, é porque valeu a pena e a gente queria viver tudo de novo sempre e quantas vezes fosse preciso, sabe, Cami. Conto de fadas, a história. Que no final das contas não tem príncipe e nem princesa, não tem mocinho nem bandido. História bonita é feita de gente, Cami. De gente que tem sentimentos, de gente que começa a pensar na história e arrepia o pêlo, gente que consegue fazer voltar a lágrima do olho mas que não deixa de sentir o peito cheio. História bonita é feita de gente, Cami. Gente que tem história bonita pra contar.
Minha solidão é ímã. Atrai as declarações mais inesperadas, as saudades mais escondidas e as vontades mais bonitas. Pena eu ser o pólo negativo.
Deixa teu samba marinar e faz dele canção.
Eu voltava do almoço pensando nas minhas jujubas. Coloridas, bonitas, doces. Tão bonitas as jujubas. Parei no sinal e pensei que eu sempre gosto mais das balas vermelhas, seja lá qual for o tipo. Mas jujubas, ah: eu gosto de qualquer uma. Bom, eu pensava nas minhas jujubas e é isso que importa. O doce daquele açúcar fininho das jujubas ainda estava no céu da minha boca. Meu céu estava doce e o céu de hoje está azul. Como jujubas azuis não existem, o céu é a coisa azul mais doce que existe. Bom, o meu céu e o açúcar das jujubas estavam doces e eu pensei, como pensei, que o meu dia não poderia ser mais doce.
O carro foi freando ali naquela rua de sempre, que estava com cara de rua de sempre porque eu pensei que o que fazia meu dia doce eram as jujubas. O sentimento de sempre é bonito, porque a rua é bonita e quando a vida é bonita ela poderia mesmo ser feia. O carro foi freando e eu vi um menino de camiseta vermelha – era vermelha a jujuba que eu tinha na mão – que estava abaixado na calçada. Eu olhei, preocupada com a vida daquele menino, que deveria ser doce.
Quando levantou, o menino sorriu mais doce que o céu de jujubas. Pegou na mão esquerda, o cartãozinho vermelho que tinha caído foi salvo. Na mão direita, seis rosas vermelhas, num plástico pequeninho. Ele olhou pra mim e eu sorri com pedaços de jujuba vermelha entre os dentes.
E eu continuei, cantarolando com jujubas na boca. Elas ajudam a ver a vida doce, mas doce mesmo é quando o céu pode não estar tão azul, mas é como se estivesse. Porque a doçura da vida está nos olhos de quem vê.
E quando me julgarem por viver paixões eternas em dois meses terei a certeza muda de ter acumulado mais sentimento em mim do que em um só pra sempre.
Despeço-me e (des)peço-te: pare (não dispare, não repare). O primeiro passo depois do adeus não é o fim: é o começo de uma nova despedida.
Quando todos dormiam, colocava o peito na mesa da cozinha e encostava o ouvido, bem forte, pra ter certeza que o coração batia. Não sabia se fazia toc-toc ou tun-tun. Estava quase certa de ser oca.