Eu fui até lá, tão longe, naquela região eu não agüentava mais ver na tevê por causa da enchente em Blumenau, depois nem podia pensar em chegar perto por causa da enchente no peito e que de uma hora pra outra passou a ser estranha de normal. Eu fui lá pra pegar o meu Cinema e o livro do Xerxenesky e nem te perguntei o que é que achaste, afinal, dos livros porque pouco importa e se é pra falar de literatura, pois bem, falaremos um dia com chopp e com aquelas pessoas que a gente sempre lista e raramente consegue juntar.
Eu fui e esperei passar aquele vão na pista da direita, sabe? Aquele que eu sempre caía de bêbada quando, bêbados, ficávamos horas conversando no meio fio ou você decidia ir ouvir a cachoeira no meio do nada e aquele mesmo vão que sempre pulava o CD do Engenheiros mas não conseguiu pular aquele espasmo de com aquele pedaço de música que eu nem lembro qual era, mas enfim, não importa. Eu esperei aquele vão como quem quer cair pra ver se é a mesma pista, o mesmo caminho, porque sabe que não é a mesma pessoa quem está ali e tudo se torna tão confuso.
Eu queria ter te dito, Marcelo, que não agüento mais comer pastilhas de menta inteiras pra tentar tirar esse gosto de podre da minha boca que sente saliva, mas não sente sentimento algum. Era pra eu ter falado também que leio Leminski sem parar pra ver se enjôo dele e paro de pensar que esse vazio agudo sou só eu, sempre cheia de tudo. Acho que queria ter falado que tenho ouvido Caetano pra ver se consigo abraçar o Herculano em pensamento, já que eu tenho tanto pra dizer a ele e só queria escrever o silêncio e colocar num envelope. Ou que eu queria passar horas conversando sobre música com o Javan, no Botânico, com o violão dele. Ou que sonho sempre com o dia que vou poder beijar a testa do Matteo e do pai dele, o Rafa. Ou que essas pessoas estão tão longe que deve ser por isso que elas estão tão perto: só não-pessoas conseguem se aproximar de mim.
Queria ter te falado que eu que não choro tenho crises de choro do lado de dentro que parece que me inundam e transbordam a minha tristeza por tudo o que é meu e que eu quase consigo tocar nesse silêncio que só é quebrado (trincado) por gritos das palavras que saltam dos livros e que me preenchem a ponto de não querer falar com ninguém pra não desperdiçar esses pedacinhos de mim por aí.
Te dito que se é difícil estar aí, aqui também é e que eu nunca te perdoei por teres me chamado daquelas coisas, mas acho que isso até disse, uma vez, nem lembro quando, mas sou repetitiva então, é. Ou poderia ter falado que na primeira página d’O Amante, da Marguerite Duras ela diz que “Muito cedo da minha vida ficou tarde demais” e eu quase desmaiei porque meu espelho há muito tempo não reflete uma coisa tão real. Aliás, queria ter te falado que desleixei de vez com a minha aparência, mas isso talvez não tenha falado porque a tua vaidade me intimida.
Queria ter te dito que nunca trabalhei tanto e que nunca foi tão bom esquecer de mim por 8 ou 10 horas por dia – quase 12h hoje, te contei?. Acho que te disse que não consigo mais escrever e que a página em branco me dá uma crise de pânico violentíssima e eu só queria correr pra algum canto onde não houvessem páginas brancas ou podia ter te falado que as páginas impressas com as duas palavras não saem do lado da minha cama, mas isso eu acho que não te falaria porque ainda não sei o que dizer delas porque me causam insônia e eu preciso me concentrar em algo bonitinho pra conseguir cochilar e esqueço que o que escreves não é bonitinho e é doído e talvez seja por isso que é tão bonito.
Queria ter te dito que não agüento mais mas acho que isso até falei. De qualquer forma, não precisaria porque eu sei que sabes que não agüento e não agüentas também e no final das contas aquele seu amigo que disse que ouvir Coldplay bem alto, deitado no chão deixando a dor contorcer o corpo estava certo: de algum jeito essa dor tem que se sair e se não for escrevendo, que seja passando duas horas no meio fio conversando sobre coisas que não se precisaria ter dito, mas se diz, afinal.
Um carinho. Um sorriso. E um abraço.
* Marcelo Labes é poeta, meu amigo, uma antiga paixão bem resolvida (só eu e ele sabemos quanto), uma pessoa apaixonante, uma lembrança bonita e quem tem um dos melhores abraços do mundo.
Cafungou o cangote dela e os pastores o chamaram de ateu. “Vou comungar no paraíso”, sorria.
Dois terços de mim são saudades. O outro terço eu rezo pra ver se descubro o que é.
Hoje completa primaveras quem fez da minha vida uma estação colorida e bonita. Hoje é aniversário de quem por tanto tempo foi o doce do café, por outro tanto seu amargo, mas quem nunca conseguiu ser ameno. Hoje é um dia que por mais nublado que seja, é azul como o olho dele. Hoje é dia de deitar na cama, abraçar um travesseiro e mandar todas as energias positivas que existem dentro de mim para quem foi (e, não minto, sempre vai ser) meu combustível. Hoje é dia de tomar um banho de mar pra tentar chegar mais perto do oceano que existe nele.
Hoje é aniversário dele. E o melhor presente que eu posso dar é essa paz que existe em mim quando chego perto, e meu coração, que antes descompassava, hoje toca um samba bom.
sou número par
me parto em exatos
pra ser inteira
Pulou sete ondas, mas seu desejo era só um: um só.
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Terminando o ano com um Curtametragem, já que foi assim que ele foi marcado: sentimentos, sensações, relações curtas, mas intensas demais. Apesar de ter sido um ano esquisito (só eu acho isso?), foi o ano do Blônicas II e o ano da Revista Nanu, que me fizeram muito feliz. Foi o ano do samba, o ano do desconcerto, o ano dos fins, o ano da independência, o ano das boas descobertas. E quam foi que disse que esquisito não pode ser bom? Volto (acho) em 2010.
Eu quis te escrever uma coisa bonita porque é tão bonito o que você faz comigo, que eu tenho vontade de te escrever todas palavras bonitas do mundo. Arco-íris, samba, mar, abraço, cafuné, café, apego. Pra te dizer coisa bonita e leve e simples, eu coloquei um João Gilberto baixinho, só com um violão cantando uma bossa. Eu queria que você lesse isso assim, com essa sensação de pôr-do-sol, de tato de pescoço com o toque de lábios, de dedo enroscado em cabelo e colo de frente pro mar. Eu te queria uma sensação bonita.
É tanto silêncio e é tanto barulho, que eu queria te dizer uma coisa bonita que calasse a tolice e te fizesse acreditar que sempre vale a pena. Queria (sem rima e sem verso, porque rima e verso são poesia e poesia é você) te dizer com palavras bonitas que não é mentira, não é exagero, não é nada. Simplesmente é.
Eu queria te dizer uma coisa tão bonita, que desse pra sentir os meus braços nas tuas costas e a escola de samba que eu tenho no peito contra o teu. Que trouxesse a sensação de conforto que só um abraço par traz. Eu queria te dizer uma coisa mais bonita que o silêncio do desconhecido próximo, mesmo sabendo que coisa mais bonita não pode haver. Queria te dizer uma coisa tão bonita quanto o suspiro que enche o pulmão de ar e transforma quilômetros em arrepios.
Queria te dizer que meu peito que era marina virou barco e que minha direção é o céu. Eu quis te mandar – por pensamento, por carta, por bytes, por notas musicais, por toque, por cheiro, por carinho – um pedaço do meu nublado. Afinal de contas, a solidão das tuas nuvens gris e do meu algodão doce é tão bonita, que eu só quis te dizer uma coisa bonita pra que você percebesse que aqui dentro não chove. Faz Bahia.